Como interpretar um relatório de calibração de um equipamento de ELETROENCEFALOGRAFIA (EEG)

Nos dias atuais manter registros de qualidade se mostra uma necessidade, não mais uma opção. Dentre as diversas formas de se documentar as características de aparelhos médicos, aferições periódicas costumam ser as que fornecem as melhores evidências da adequação dos mesmos, no entanto, as informações constantes nos relatórios de calibração frequentemente mencionam dados utilizando expressões técnicas e jargões que não são compreensíveis à maioria dos profissionais que deles deveriam se beneficiar.

Este texto tem por objetivo apresentar os conceitos básicos para a compreensão de um relatório de calibração de equipamentos eletrônicos em geral, e em particular de equipamentos de bio medidas, tais como eletrocardiógrafos e eletroencefalógrafos. O texto evitará formalismo em excesso, de modo a facilitar a compreensão, mas tentará ser suficientemente rígido quanto aos conceitos expostos. Não há a intenção de se apresentar conceitos de análise de traçado eletrográfico, embora alguns deles venham a ser usados em exemplos e comentários.

Antes, porém, de iniciar a descrição do processo de medição que leva ao relatório de calibração, é aconselhável gastar um tempo falando sobre o porquê dos mesmos.

Um profissional que utiliza um instrumento de medição qualquer, deve compreender que este nunca poderá dar uma informação absolutamente acurada e absolutamente precisa. Conhecer as limitações de acurácia e precisão dos mesmos (a cada utilização) faz parte do trabalho. Mas o que significam precisão e acurácia? Antes de responder é necessário lembrar que ao se avaliar um equipamento de medição, tomar um único valor como base para conclusões é inaceitável, e que um conjunto de medições deve ser usado. Posto isso, vamos aos termos:

Precisão: Define o grau de repetibilidade de uma medida, ou seja, mesmo que um equipamento esteja mostrando medidas bastante diferentes do valor exato, este pode ser muito preciso se as diversas medidas realizadas diferirem muito pouco entre si.

Acurácia: Define o quanto a média de um conjunto de medidas está distante do valor exato. Um equipamento pouco preciso pode ser bastante acurado, se as medidas anotadas ficarem bem distribuídas ao redor do valor exato, ainda que haja grande diferença entre as várias medidas.

Vamos prosseguir colocando questões que vão permitir que novos conceitos sejam apresentados de forma gradual e facilitada.

P. O que é ganho e o que é sensibilidade em um equipamento de EEG ou ECG?

R. Ganho, grosso modo, é uma medida de o quanto um sinal é aumentado antes de ser medido. Sensibilidade se refere a qual a altura do sinal exibido (por exemplo em mm) em relação à sua amplitude (em voltagem). Assim, um exemplo de valor de sensibilidade seria 10 µV/mm.

P. O que ganha um profissional ao conhecer as limitações de um equipamento?

R. Essa pergunta parece ter respostas óbvias (e tem mesmo), mas permite que algumas considerações sejam postas. Por exemplo, no caso de EEG a maioria dos livros textos e artigos se preocupam com a morfologia e a frequência do traçado, e menos vezes citam padrões eletroencefalogáficos associados com a amplitude. Pense, porém, em uma situação na qual uma descarga paroxística é registrada em diversos canais consecutivos. Se todos os canais estiverem com um ganho aproximadamente 10% abaixo do valor indicado, não haverá problema para um especialista avaliar o quadro, porém, se apenas um dos canais estiver apenas 5% abaixo e seu vizinho 5% acima, isso pode sim levar a dificuldades na localização do foco, ou mesmo na identificação de uma atividade focal.

Vale lembrar situações em que mesmo um equipamento com vários canais ”igualmente errados” pode prejudicar um laudo, por exemplo, no estagiamento do sono de ondas lentas.

Fica claro então que ter a certeza sobre o quanto o equipamento está distante dos seus valores nominais (distante da sensibilidade escolhida pelo profissional no momento da análise) permite avaliar se o mesmo pode ser usado para o fim destinado.

P. De quem é a responsabilidade pela aceitação do uso do equipamento?

R. A maioria dos profissionais de diversas áreas, tem dificuldade em responder essa pergunta. A resposta deve considerar que o usuário do equipamento é o maior interessado em seu desempenho. A rigor, por definição (Norma ABNT NBR ISO/IEC 17025) um relatório de calibração é fundamentalmente um conjunto de medidas feitas sob condições controladas, preferencialmente similares às condições de uso do equipamento. Nunca um laboratório contratado para realizar o relatório pode emitir uma opinião acerca da viabilidade de uso do mesmo, porém, pode auxiliar o contratante que deseje corrigir um desajuste no equipamento, efetuando o ajuste (caso tenha a autorização do fabricante do equipamento) ou indicando quem possa fazê-lo, e refazendo o relatório após o ajuste.

Em algumas situações, um mesmo relatório de calibração poderá levar um bom profissional a indicar que o uso do equipamento seja aceito sem problemas e outro, também bom, a requisitar que as características do mesmo sejam alteradas (corrigidas) antes que ele volte a operar. Tome o exemplo de um eletroencefalógrafo que tem todos os canais com a sensibilidade real distante quase exatamente +8% da ideal. Certamente o tipo de uso (em EEG e em PSG - polissonografia) fará diferença na aceitação do mesmo.

Tendo sido expostos os conceitos acima, é hora de se falar sobre um item que tem que estar presente em qualquer relatório corretamente emitido: A rastreabilidade dos instrumentos de medida utilizados, permitindo avaliar a incerteza das medições realizadas.

Embora pareça simples, esse assunto como um todo é mais complexo do que este texto se propõe a alcançar, e certamente conhecer todos os detalhes não interessa ao contratante do relatório, apenas ao emissor. Por isso, vamos apresentar apenas alguns desses detalhes (se desejado, a bibliografia anexa permite um aprofundamento no tema). A questão básica é a seguinte: Como garantir que um equipamento foi aferido com instrumentos os quais, eles próprios, estavam adequados à tarefa?

Podemos pensar em algumas formas de responder a essa questão, quase todas sujeitas à críticas do tipo “como garantir a exatidão do outro instrumento?”. Felizmente, a necessidade de se garantir a adequação dos instrumentos de medidas foi percebida há bastante tempo em diversos países, e desde então se criou no planeta uma rede de calibração, em que à custa de muito investimento e trabalho, um conjunto de instrumentos aceitos como tendo suas características altamente bem definidas está disponível para ser usado por outros (muitos mais), que por sua vez (apesar da incerteza sobre a exatidão dessa segunda geração ser ligeiramente maior) podem ser usados por outros (muitos mais de novo) e assim por diante até que se chegue aos equipamentos para uso específico, como por exemplo, um eletrencefalógrafo, um eletromiógrafo ou um eletrocardiógrafo.

No Brasil, o INMETRO coordena a RBC (Rede Brasileira de Calibração) à qual a maioria dos laboratórios se vincula, podendo trabalhar na modalidade de instituição acreditada (recebe inspeção e certificado oficiais) ou apenas se servir de medições feitas em seus instrumentos por terceiros os quais usaram instrumentos aferidos pela RBC.

Como dito acima, é claro que a garantia de exatidão das medidas diminui conforme passamos de uma “geração” de medição mais anterior para a seguinte, porém, se essa perda de exatidão (aumento da incerteza) for documentada, não haverá problema em aceitá-la desde que seja pequena suficiente para a aplicação em questão.

Fica evidente, portanto, que um bom relatório de calibração deve informar quais instrumentos de medição foram utilizados e anexar cópias dos certificados de calibração dos mesmos.

A incerteza das medições leva em conta claro a acurácia e a precisão, e no relatório final a incerteza do instrumento deve ser acrescentada à incerteza do próprio equipamento sob avaliação.

No caso de equipamentos multicanais (o que constitui a quase totalidade dos modelos atuais), cada canal deve ter suas características levantadas, e a comparação das mesmas é obviamente relevante. Eventualmente um usuário nunca se utiliza de todos os canais do equipamento que possui o que lhe permitiria aceitar desvios maiores nestes.

Bibliografia.

João Francisco Galera Monico, Aluir Porfírio dal Póz, Maurício Galo, Marcelo Carvalho dos Santos, Leonardo Castro de Oliveira. “ACURÁCIA E PRECISÃO: REVENDO OS CONCEITOS DE FORMA ACURADA”  Bol. Ciênc. Geod., sec. Comunicações, Curitiba, v. 15, n o  3, p.469-483, jul-set, 2009.

Virgílio A. F. Almeida. “Métodos Quantitativos para Ciêinca da Computação Experimental” http://homepages.dcc.ufmg.br/~virgilio/download/quant2010-1/aula3.pdf

BUSSAB, W. O.; MORETTIN, P. A.  “Métodos Quantitativos – Estatística Básica.”

São Paulo: Editora Atual, 1987. 321 p.

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